24 ago 2026
Por William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue

Certamente, um tema que ganhou destaque e chamou a atenção na última semana foi a intervenção do Tesouro americano no mercado de títulos públicos na quarta-feira (19).
O catalisador da intervenção foi a alta dos yields, especialmente dos títulos americanos de longo prazo (30 anos), que chegaram ao patamar recorde de 5,34% na terça-feira (18), o mais alto desde 2007. Existem diversas teorias que buscam explicar essa alta, mas as preocupações com o déficit fiscal americano e a trajetória da dívida pública são fatores centrais nessa equação. Além desses pontos, podemos citar: as tensões geopolíticas no Oriente Médio que elevavam os preços de energia, a resiliência da inflação ainda acima da meta do Federal Reserve e a própria ausência de um direcionamento mais definido do Fed (foward guidance), o que incrementa a incerteza no mercado de títulos. Em conjunto, esses fatores criaram um ambiente de forte volatilidade e pressão sobre a curva de juros.
A estratégia oficial apresentada pelo Tesouro, sob o secretário Scott Bessent, foi a de fornecer maior suporte à liquidez nos setores nominais de prazos mais longos (10 a 20 anos e 20 a 30 anos). Na prática, o objetivo era facilitar a venda de títulos mais antigos e menos líquidos pelos dealers, melhorar o funcionamento do mercado de Treasuries longos e ajudar a conter a alta dos yields, os quais impactam diretamente as taxas de hipotecas, o custo de crédito das empresas e o próprio financiamento do governo. Portanto, não se trata de uma mudança estrutural na política de emissão ou de redução de déficit, mas sim, um ajuste técnico de liquidez.

Fonte: Treasury Secretary Bessent doubles US long-bond buybacks in the face of surging yields | Reuters, 19/ago/2026
Por meio do programa de recompras de liquidez (liquidity support buybacks) que já existia e foi ampliado. O Tesouro recompra títulos antigos, conhecidos como off-the-run. O limite que antes era de US$ 2 bilhões por operação, a partir de agora será de pelo menos US$ 4 bilhões por operação. O aumento vale para os segmentos de títulos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos, com vigência de 9 de setembro a 4 de novembro de 2026. O incremento total de liquidez no período fica em torno de US$ 14 bilhões, um valor ainda simbólico diante dos mais de US$ 32 trilhões referentes à dívida pública em circulação. Assim, embora o montante seja modesto frente ao passivo total, a sinalização ao mercado foi relevante.
O impacto imediato foi a queda dos yields dos títulos de dívida americana de longo prazo (10, 20 e 30 anos) na quinta-feira (20). O mercado interpretou o anúncio como um sinal de proatividade do Tesouro em atuar, mesmo que de forma limitada, para suavizar altas mais fortes nos rendimentos.
Para o investidor brasileiro, contudo, o impacto que mais chama a atenção foi o efeito no índice dólar (DXY), que cedeu com a queda dos yields. Ainda que a moeda americana possua uma dinâmica própria frente ao Real, a retração observada do DXY no contexto global pode ajudar a conter maiores pressões altistas sobre o câmbio doméstico.

Fonte: TradingView.com, 20/ago/2026
De fato, a medida do Tesouro nos parece um alívio tático e temporário, e não uma solução estrutural. Afinal, ajuda a melhorar a liquidez no extremo longo da curva e pode ajudar a estabilizar taxas de hipotecas e custos de crédito. Por outro lado, entendemos que a trajetória dos yields longos continuará dependendo principalmente da evolução da inflação, da política do Fed, da credibilidade fiscal do governo e dos fluxos de demanda global por Treasuries. No curto prazo, a intervenção traz certo alívio para o Real, que, depois de alguns dias de performance mais fraca, conseguiu uma semana menos negativa.
Diante de uma semana de agenda mais branda, o foco do calendário econômico recaiu sobre a ata da reunião de julho do Federal Open Market Committee (FOMC), divulgada na quarta-feira (19). Em suma, ela mostrou um comitê mais dividido e preocupado com a inflação do que a decisão final de manter os juros sugeria.
O FOMC votou por 9 a 3 para manter a taxa dos Fed funds no intervalo de 3,50% a 3,75%, o mesmo desde o final de 2025. Os três votos divergentes vieram das presidentes regionais Beth Hammack (Cleveland), Neel Kashkari (Minneapolis) e Lorie Logan (Dallas), que preferiam propor um aumento de 25 pontos-base já naquela reunião. Elas argumentaram que as pressões de preços estavam amplas e que adotar uma postura mais restritiva agora ajudaria a evitar a necessidade de um aperto mais forte e potencialmente mais custoso no futuro.
Além dos três votos formais a favor da alta, a ata revelou que “vários” (several) participantes eram a favor de um aumento de 25 pontos-base e que “muitos” (many) avaliaram que um aperto adicional da política monetária provavelmente seria necessário se a inflação não recuasse. Alguns membros questionaram se as condições financeiras atuais eram suficientemente restritivas para levar a inflação de volta à meta de 2%. A ata também descreve a inflação como elevada e o cenário futuro como “altamente incerto”, com riscos assimétricos para cima. Os fatores citados incluem tarifas, custos de energia ligados ao conflito no Oriente Médio e a demanda gerada pelos investimentos em inteligência artificial. A maioria dos participantes ainda esperava que a inflação recuasse no segundo semestre, à medida que os efeitos das tarifas e dos preços de energia anteriores se dissipassem. Entretanto, muitos alertaram para a possibilidade dela permanecer persistentemente elevada por mais tempo.
Sobre a economia, os participantes do comitê viram a atividade se expandindo em ritmo sólido, com produtividade e investimentos em capital fortes, além de um mercado de trabalho amplamente equilibrado. Ao mesmo tempo, reconheceram a incerteza elevada e os riscos de baixa para a atividade.
O documento também registrou discussões sobre a estratégia de comunicação do Fed sob a presidência de Kevin Warsh (sua segunda reunião no cargo), com menor ênfase em forward guidance e maior peso nos dados realizados. Houve menção à possibilidade de reduzir o número de reuniões anuais de oito para seis, o que daria mais tempo entre os encontros para a acúmulo de informações econômicas.
Confira a seguir, três trechos destacados da ata que resumem o panorama apresentado:

Fonte: Long-bond yields tumbled after Treasury expanded buybacks – The Daily Shot, 20/ago/2026
Em resumo, as atas reforçaram a imagem de um Fed dividido, data-dependent e com viés de cautela contra a inflação. Juntas elas sinalizam que a porta para novas altas permanece aberta caso a pressão inflacionária não demonstre progresso mais claro, mas também revelam que a maioria ainda prefere esperar por mais confirmação antes de agir. Portanto, o cenário base aponta para um ciclo prolongado de dependência rigorosa dos dados.
Na sexta-feira (21), tivemos a divulgação dos flashs PMIs de agosto de 2026, que apontaram uma aceleração da atividade do setor privado. O PMI composto subiu para 56,0 pontos, atingindo o maior nível em 20 meses, impulsionado principalmente pelo setor de serviços, cujo índice avançou para 56,8 (acima das expectativas de 54,0 e dos 54,6 pontos de julho). Já o PMI manufatureiro recuou levemente para 53,2 pontos, abaixo dos anteriores (53,9) e das previsões.
Abaixo, listamos os principais pontos de destaque do relatório:
Chris Williamson, Economista-Chefe de Negócios da S&P Global Market Intelligence, comentou:
“O setor empresarial dos EUA está em plena expansão; as empresas relataram o crescimento de produção mais rápido em mais de quatro anos durante este terceiro trimestre, com a expansão ganhando ainda mais força em agosto. Os dados da pesquisa para o terceiro trimestre apontam, atualmente, para um crescimento anualizado próximo de 3,0%, um aumento sólido em relação ao ritmo de 1,5% observado no segundo trimestre.”

Fonte: PMI Releases, 21/ago/2026
No geral, os dados evidenciam a resiliência da economia americana, com expansão sólida mesmo diante de um leve arrefecimento na indústria. Chama a atenção a aceleração no setor de serviços (fundamental para a economia americana), apontando para um crescimento anualizado próximo de 3,0%. Embora seja cedo para conclusões definitivas, trata-se de um número bastante positivo para o nível de atividade. Paralelamente, outros indicadores da semana ratificaram esse dinamismo econômico.
Outros indicadores econômicos da última semana:
Estamos na reta final da safra de resultados corporativos. Até o momento,i estes são os principais números do S&P 500:
Nessa semana, o foco recaiu sobre o varejo americano,que apresentou um retrato misto, porém resiliente. As grandes redes confirmaram que o consumidor continua gastando, mas de forma seletiva, priorizando: valor, e-commerce e categorias essenciais; enquanto evita projetos maiores para a casa. Outro fator favorável foram os reembolsos de tarifas, que contribuíram para a melhora das margens de várias empresas no trimestre.
Em suma, os dados do setor refletem um consumidor mais disciplinado, porém ainda ativo.e gráfico. Ademais, esse otimismo pulverizado entre diferentes setores sinaliza confiança na rentabilidade futura.rar que os números de expectativas podem não se materializar e representam apenas as opiniões e estimativas da instituição.

Conforme comentamos acima, o grande evento da semana foi a operação do Tesouro americano. Como reflexo os yields dos Treasuries americanososcilaram bastante na última semana, registrando uma forte queda na quarta-feira (19), após o anúncio de recompra de títulos longos, mas recuperaram rapidamente na quinta-feira (20) com a alta do petróleo e as preocupações fiscais e inflacionárias. As taxas fecharam a semana em torno de 4,70% no título de 10 anos e 5,25% no de 30 anos, níveis ainda elevados e próximos das máximas recentes.

Fonte: Tradingview.com, 21/08/2026
A bolsa americana encerrou a semana em terreno negativo. Apesar do alívio temporário na quarta-feira (19) com o anúncio do Tesouro, a renovada pressão na quinta-feira (20), movida pela recuperação dos yields, alta do petróleo, tensões geopolíticas com o Irã e resultados fracos da Walmart, pesou sobre os índices e sobre o setor de consumo.
Além do dólar, o gatilho macroeconômico da intervenção do Tesouro gerou impactos no ouro e no Bitcoin. Momentos em que o papel do dólar é debatido em meio a elevada dívida americana, acabam favorecendo ativos alternativos como o ouro e criptomoedas.
Ainda em relação ao ouro, o ativo de refúgio teve valorização de mais de 4% na semana e agora acumula alta de cerca de 12% em agosto, com o preço spot avançando dos aproximados US$ 4.050 por onça para em torno de US$ 4.600.
Quanto aos criptoativos, destacamos quatro fatores que contribuíram para o desempenho do Bitcoin:
Por fim, fluxos institucionais voltaram: ETFs spot de Bitcoin nos EUA registraram entradas robustas de mais de US$ 1 bilhão em poucos dias, com sessões de centenas de milhões.
Melhora no apetite por ativos de risco, o que favorece criptomoedas como o Bitcoin.
Short squeeze massivo, após semanas de lateralização e acúmulo de posições vendidas. A ruptura de resistências forçou a liquidação de bilhões de dólares em posições vendidas (estimadas em até US$ 4 bilhões), gerando compras forçadas e um efeito em cascata.
Fatores regulatórios e de sentimento em Washington. O presidente Donald Trump se encontrou com líderes do setor, houve pressão para avançar o Clarity Act (estrutura de mercado de cripto) e sinais da SEC, como proposta relacionada a criptoativos.

Fonte: Tradingview.com, 21/08/2026
Iniciamos a semana (de 22 a 28 de agosto) com foco na divulgação do PCE (índice de preços das despesas de consumo pessoal) e da segunda estimativa do PIB do 2º trimestre, indicadores-chave para a política monetária do Fed. Também há o início do Simpósio de Jackson Hole, que pode trazer sinais importantes sobre a condução dos juros. Abaixo, confira um resumo da agenda semanal dos principais indicadores:
No cenário internacional, atenção aos dados de atividade e confiança na Europa (IFO na Alemanha e outros), mercado de trabalho e preços no Japão, além de possíveis desdobramentos do Simpósio de Jackson Hole, que podem influenciar commodities, moedas emergentes (como o real) e o apetite global por risco.
Acompanhe a seguir o calendário econômico completo para detalhes atualizados.

Na cena corporativa, além da continuidade dos balanços do varejo (Dollar General, Dollar Tree, Best Buy, Ulta Beauty), o mercado aguarda com expectativas o resultado em específico da Nvidia.
Outros destaques de tecnologia envolvem balanços de algumas empresas do segmento de software e segurança cibernética, como: Intuit, Salesforce, CrowdStrike, Synopsis, HP, Marvell, Autodesk e Workday.

William Castro Alves
@willcastroalves
Aquele abraço!
Estrategista-chefe da Avenue Securities
DISCLAIMER
A Avenue Securities LLC é membro da FINRA e da SIPC. Oferta de serviços intermediada por Avenue Securities DTVM. Veja todos os avisos importantes sobre investimento: https://avenue.us/termos/.
As expressões de opinião são a partir desta data e estão sujeitas a alterações sem aviso prévio. Não há garantia de que estas declarações, opiniões ou previsões aqui fornecidas se mostrem corretas. Este material está sendo fornecido apenas para fins informativos. Qualquer informação não é um resumo completo ou uma declaração de todos os dados disponíveis necessários para tomar uma decisão de investimento e não constitui uma recomendação.
O desempenho passado não é indicativo de resultados futuros. Investir envolve risco e você pode incorrer em um lucro ou perda, independentemente da estratégia selecionada.
Os links estão sendo fornecidos apenas para fins informativos. A Avenue não é afiliada e não endossa, autoriza ou patrocina nenhum dos sites listados. A Avenue não é responsável pelo conteúdo de qualquer site ou pela coleta ou uso de informações sobre os usuários de qualquer site.
O investimento internacional envolve riscos especiais, incluindo flutuações cambiais, diferentes padrões contábeis financeiros e possível volatilidade política e econômica.
Tenha em mente que os indivíduos não podem investir diretamente em nenhum índice, e o desempenho do índice não inclui custos de transação ou outras taxas, o que afetará o desempenho real do investimento. Os resultados individuais do investidor variam. O desempenho passado não garante resultados futuros.
Manter ações para o longo prazo não garante um resultado rentável. Investir em ações sempre envolve risco, inclusive a possibilidade de perder todo o investimento.
Qualquer informação não é um resumo completo ou declaração de todos os dados disponíveis necessários para tomar uma decisão de investimento e não constitui uma recomendação. Os investimentos mencionados podem não ser adequados para todos os investidores.
Antes de investir, considere os objetivos, riscos, taxas e despesas do investimento. Entre em contato com [email protected] para obter um prospecto contendo essas e outras informações importantes. Leia com atenção antes de investir.