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Jackson Hole, inflação americana e resultados tech da temporada de balanços 2T26

31 ago 2026

Por William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue

A SEMANA QUE PASSOU

Começamos o panorama semanal com o índice de confiança do consumidor medido pelo Conference Board, mostrando queda para 89,4 em agosto, ante 90,2 em julho, um número abaixo do esperado pelo mercado (90,2). A retração foi liderada por uma perda de 7,8% no índice de expectativas, que compensou a primeira melhora em quatro meses na percepção sobre a situação atual. Além disso, a economista-chefe, Dana Peterson, afirmou que os consumidores estão mais pessimistas em relação às condições de negócios e ao mercado de trabalho. Esse movimento reflete um cenário de cautela crescente entre as famílias americanas.

Fonte: US Consumer Confidence, 25/08/2026

Contudo, o dado mais aguardado da semana era o indicador de inflação preferido do Fed, o PCE (Personal Consumption Expenditures). O índice que traz os preços de gastos com consumo pessoal subiu 0,2% em julho (ajustado sazonalmente), elevando a taxa anual para 3,7%. Ambos os números ficaram 0,1 ponto percentual acima da expectativa do consenso Dow Jones. Já o núcleo do PCE (excluindo alimentos e energia) avançou 0,2% no mês e 3,3% no ano, em linha com as previsões.

Ainda no campo de dados mais fortes que surpreenderam o mercado, tivemos a renda pessoal, com alta de 0,4% e os gastos, que aumentaram 0,2%. Os preços de bens caíram 0,1% (impulsionados pela queda de 2,7% em gasolina e energia, e 0,9% em móveis e equipamentos duráveis), enquanto os preços de serviços subiram 0,3% (com alta de 1,2% em serviços financeiros e seguros, e 0,3% em habitação).

Junto ao dado de inflação, tivemos acesso também à segunda revisão do PIB do segundo trimestre, que veio em linha com o esperado e manteve a leitura anterior de crescimento de 1,5%. O gráfico abaixo apresenta as médias anualizadas dos últimos meses, constatando que apesar do abrandamento recente da inflação, os números seguem acima da meta do Fed.

Fonte: Nick Timiraos on X, 26/08/2026

Depois de alguns meses de leituras mais brandas ou menos fortes do que esperado no campo da inflação, os números do PCE trouxeram uma leitura diferente, com valores levemente acima das expectativas na leitura do índice cheio. Isso somado à elevação dos gastos de consumo pessoal, e os últimos dados que mostram certa resiliência no crescimento econômico – por exemplo o Flash PMI e resultados corporativos – mantém a discussão sobre inflação viva e, como consequência, acesa a pauta sobre aumentos de juros. Por outro lado, ainda há tempo até a próxima reunião do FOMC, prevista para setembro (16). Até lá temos outros indicadores que serão considerados na análise prospectiva acerca da inflação. Portanto, o cenário permanece aberto até a decisão de política monetária.

JACKSON HOLE

Fonte: William Castro Alves, 28/08/2026

Na semana, se a inflação era o dado mais esperado, Jackson Hole era o evento mais aguardado pelo mercado no campo econômico.

Em discurso no simpósio de Jackson Hole na última sexta-feira (28), o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, expressou preocupação com a inflação, ao mesmo tempo em que defendeu um banco central mais observador. Ele evitou dar sinais sobre o próximo passo dos juros e não se comprometeu com orientações antecipadas de política monetária (forward guidance), tão pouco detalhou quais dados fariam o Fed mudar os juros.

Sobre a alta nos preços, Warsh reconheceu que as leituras de inflação do verão (PCE e CPI) vieram melhores do que o esperado, mas afirmou que isso não indica que as tendências tenham melhorado de forma significativa. Afinal, segundo o presidente, o Fed precisa ter confiança de que a inflação está convergindo para atingir a meta de 2% com clareza e velocidade suficientes; caso contrário, os juros podem precisar subir e em suas palavras “há trabalho a fazer”. Warsh disse: “Estou aqui comprometido com uma disciplina, não com uma decisão.

A atividade econômica também foi alvo de comentários de Warsh. Ele comentou que a economia “parece ter se fortalecido” e que a inteligência artificial já está trazendo benefícios. Além disso, o gasto de empresas e consumidores se manteve firme. Sem deixar de pontuar que o ritmo mais fraco de contratações se deve a uma oferta de trabalho que se achatou, e não a um colapso da demanda.

Forward Guidance. O presidente do banco central americano defendeu comunicações mais discretas e objetivas e brincou: “podem chamar de esboço ou mapa de trilha… só não chamem de forward guidance”, prática que, na visão dele, já ficou ultrapassada. Além disso, Warsh se posicionou contra a atuação da instituição que muitas vezes alimenta um regime em que os participantes criam certa dependência para realizar os seus investimentos.

Nossa conclusão é que o discurso de Warsh em Jackson Hole foi de postura hawkish. Ele evitou o chamado forward guidance, mas deixou a função de reação explícita, ou seja, só haverá alívio quando houver confiança suficiente da inflação caminhar para 2% no PCE com clareza e velocidade. Enquanto isso não ocorrer de fato, Warsh defende que existe trabalho a ser feito. Três pontos definem a leitura:

(i) Juros de curto prazo é o instrumento principal para o mandato duplo;

(ii) A interpretação de que as condições financeiras, no agregado, não estão restritivas;

(iii) A inflação segue acima da meta, e as leituras melhores recentes não bastam para dizer que a tendência melhorou.

Sendo assim, entendemos que não é possível afirmar que teremos aumentos de juros em setembro, mas tudo indica que isso pode se concretizar. Os impactos foram vistos na elevação dos yields dos títulos de dívida americanos.

Fonte: Investing.com, 28/08/2026

Ao sinalizar que a política atual não está apertada e que os juros curto prazo continuam sendo a arma contra inflação persistente, o Fed mantém o diferencial de taxas dos EUA alto por mais tempo. Diante desse cenário, o dólar ganha força globalmente e fôlego para afastar a tese de uma moeda fraca.  Para ilustrar esse movimento, veja abaixo a trajetória do índice DXY nos últimos cinco dias, com destaque para o salto observado na sexta-feira.

Fonte: Tradingview.com, 28.08/2026

Em resumo, as atas reforçaram a imagem de um Fed dividido, data-dependent e com viés de cautela contra a inflação. Juntas elas sinalizam que a porta para novas altas permanece aberta caso a pressão inflacionária não demonstre progresso mais claro, mas também revelam que a maioria ainda prefere esperar por mais confirmação antes de agir. Portanto, o cenário base aponta para um ciclo prolongado de dependência rigorosa dos dados.

CENÁRIO DE RESULTADOS CORPORATIVOS – Nvidia reforça a forte demanda no universo de AI

Na cena corporativa tivemos resultados que movimentaram o mercado, mas nada se comparou aos números alcançados pela Nvidia (NVDA). A empresa divulgou, na quarta-feira (26), resultados recordes do segundo trimestre fiscal de 2027 (encerrado em 26 de julho): receita de US$ 96,2 bilhões, alta de 106% em relação ao ano anterior e 18% na comparação trimestral, impulsionada principalmente pela divisão de data center, responsável por faturar US$ 89 bilhões (crescimento maior que 117% a/a). O lucro líquido GAAP chegou a US$ 59,7 bilhões (crescimento acima de 126% a/a), com EPS (lucro por ação) de US$ 2,46 (GAAP), superando as expectativas do mercado. Não obstante, forneceu um guidance (projeção) de receitas para o trimestre corrente de US$ 108 bilhões (±2%), número que também ficou acima do esperado. Mesmo com restrições de oferta, o CEO Jensen Huang afirmou que a IA atingiu seu ponto de inflexão e já tem usos práticos nas vidas das pessoas e empresas. O gráfico abaixo, do Wall Street Journal, ajuda a visualizar a tendência de crescimento dos lucros reportados pela empresa (barra azul escura), o qual tem superado consistentemente as expectativas do mercado (barra azul clara) desde 2022.

Fonte: Nvidia Shares Climb Postmarket After Chip Giant’s Results – WSJ, 26/ago/2026

Avançando com os balanços mais relevantes, destacamos as ações da Salesforce (CRM). A empresa mostrou uma receita evoluindo 11% em relação ao ano anterior e alcançando US$ 11,3 bilhões; um lucro líquido de US$ 3,53 bilhões e um EPS (lucro por ação) de US$ 4,29 (alta de +119% a/a), impulsionado em parte por um ganho próximo de US$ 2,6 bilhões em investimentos estratégicos (incluindo participação na Anthropic). A organização elevou a previsão de receita para o ano fiscal de 2027 para US$ 46,1 e US$ 46,4 bilhões, e destacou o forte crescimento do Agentforce (plataforma da Salesforce para criação e gestão de agentes autônomos). Entretanto, o que mais chamou atenção foi o anúncio de integração do Claude da Anthropic com os dados e fluxos da Salesforce. Pois reforça a tese de que a IA complementa (e não substitui) o software empresarial, o que ajudou também a aliviar o medo do chamado “SaaSpocalypse”.

Outros balanços corporativos que chamaram a atenção foram:

E, após a divulgação dos últimos resultados na semana passada, podemos decretar o fim da safra de balanços do segundo trimestre de 2026. Os relatórios entregaram os principais números:

Em resumo, podemos concluir que o balanço final foi positivo, confirmando a solidez operacional das corporações norte-americanas. As margens de lucro das empresas americanas atingiram recorde no 2º trimestre de 2026: o lucro após impostos como parcela do valor agregado bruto subiu para 19,4% (ante 18,2% no 1º tri), o maior nível da série do BEA desde os anos 1940, conforme mostra o gráfico abaixo. Além dos resultados acima das projeções de diversas empresas de tecnologia, os reajustes de preços e um consumidor ainda resiliente contribuíram num ambiente em que o PIB real cresceu 1,5% anualizado e o investimento fixo não residencial avançou 8,5%.

Fonte: US Corporate Profit Margins Widen to Highest on Record – Bloomberg, 26/ago/2026

IMPACTOS NO MERCADO

A SEMANA QUE SE INICIA

Iniciamos a semana (de 30 de agosto a 5 de setembro) elegendo como destaque o relatório de emprego de agosto (Nonfarm Payrolls), o ISM de manufatura e serviços e o Beige Book do Fed. Abaixo um resumo dos indicadores que serão divulgados: 

No cenário internacional, vale manter atenção aos PMIs da Europa e da Ásia, inflação preliminar da zona do euro e possíveis desdobramentos dos dados americanos de emprego e atividade, que podem influenciar commodities, moedas emergentes (como o real) e o apetite global por risco. 

Acompanhe a seguir o calendário econômico completo para detalhes atualizados..

O calendário atual de resultados corporativos arrefece, mas ainda teremos empresas conhecidas divulgando seus números ao longo desta semana. Confira abaixo:

William Castro Alves

@willcastroalves

Aquele abraço!

Estrategista-chefe da Avenue Securities

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William Castro Alves

Estrategista-Chefe da Avenue

Formado em economia pela UFRGS – RS. Em 2004, iniciou sua carreira na Solidus Corretora, com passagens pelo Koliver Merchant Bank e Banco Alfa. Foi sócio, analista-chefe e um dos principais porta-vozes da XP Investimentos. Também foi sócio e líder de gestão da VGR Gestão de Recursos. Possui as certificações Series 7 e 24. É estrategista-chefe, sócio e porta voz da Avenue desde 2018.

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