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Guerra no Oriente Médio, PPI quente e NVIDIA em queda

Por William Castro Alves, Estrategista-chefe da Avenue

03 mar 2026

Em retrospectiva, a última semana começou com tarifas de Trump assustando o mercado, passou por resultados pouco animadores da NVIDIA, divulgação de um PPI quente, que complicou a leitura do PCE, e terminou literalmente com uma bomba. Na noite de sábado (28/02), Estados Unidos e Israel iniciaram a operação militar “Fúria Épica” contra o Irã, gerando novos desdobramentos no cenário geopolítico.

A semana que passou

O pano de fundo da semana passada

A semana iniciou sob pressão. Logo na segunda-feira (23/02), o presidente americano Donald Trump, escalou as ameaças tarifárias, gerando uma onda de aversão ao risco que derrubou o S&P 500, o Dow Jones e o Nasdaq. As declarações provocaram sentimento de cautela, uma vez que fevereiro já vinha sendo um mês difícil para os mercados acionários, especialmente para o setor de tecnologia – pressionado pelo debate sobre a real produtividade dos investimentos em IA.

Houve ganho de fôlego na terça (24/02) com S&P 500 subindo para 0,77% e fechando em 6.890, e Nasdaq avançando 1,04%. A quarta-feira (25/02) levou os índices a uma máxima semanal, fazendo o S&P tocar a região de 6.944-6.952, porém sem sustentação pelo mercado. Já a quinta-feira (26/02) trouxe o “duplo golpe”: os resultados da NVIDIA não foram encarados como animadores pelo mercado, e um PPI, esquentou as apostas inflacionárias.

Inflação: entendendo o dado do PPI

O dado mais relevante da semana para a política monetária americana foi a divulgação do PPI (Producer Price Index) de janeiro, na última sexta-feira (27). O relatório mensal revelou crescimento acima da expectativa de mercado para a maioria dos indicadores, com PPI headline registrando subida de +2,9% (superior aos 2,6% projetados pelo mercado); apesar de abaixo dos 3,0% de dezembro, o indicador econômico ainda assim se mostrou superior ao consenso.

A variação mensal avançou +0,5% e ficou levemente acima da expectativa de +0,3%. O core PPI (ou núcleo PPI – indica a variação de preços excluindo alimentos e energia) subiu +3,6% a/a, surpreendendo o projetado (3,0%)  e alcançando o maior nível desde julho de 2025. Por fim, o núcleo PPI mensal também registrou crescimento de +0,8%, superior ao esperado de +0,5%.

Aqui, o que realmente importa para os mercados não é só o headline, e sim, o chamado: “super core” do PPI. A medida inclui as  categorias de serviços financeiros, saúde e outros componentes que alimentam diretamente o cálculo do PCE (Personal Consumption Expenditures), o indicador preferido do Fed para verificar a inflação. Nesse ponto, o dado se apresentou bom, abaixo das expectativas e com revisão para baixo da referência anterior.

Em linhas gerais: o PPI veio quente, mas aponta uma desinflação que não está longe de ser linear.

Fed: sem pressa

As minutas da reunião de janeiro do Fed, divulgadas na terceira semana de fevereiro (18/02), deram um recado claro: sem pressa para retomar os cortes. O que mais chamou a atenção no documento foi o tom hawkish de parte do Comitê, em que alguns membros sugeriram que poderia ser adequado manter a taxa por um período, enquanto o mesmo, revisa os dados. Além disso, vários desses participantes acreditam que novos afrouxamentos podem não ser justificados até que haja evidência clara de que a desinflação voltou ao curso. Mais do que isso! Alguns membros até cogitaram a possibilidade de alta de juros se a inflação persistir acima da meta.

O Fed decidiu manter a taxa entre 3,50% e 3,75%. Os votos dissidentes por corte dos governadores, Waller e Miran, não foram suficientes contra os 10 votos favoráveis. Com dados divulgados do PPI e o PCE ainda a ser publicado, o CME FedWatch mostra alta probabilidade de manutenção da taxa até meados de março.

Impactos no mercado

Renda variável: NVIDIA e rotação setorial

A semana foi marcada pela queda de mais de 5% das ações da NVIDIA após a divulgação dos resultados. O impacto se espalhou pelo setor com o Philadelphia Semiconductor Index sofrendo recuou de 3,2%, ameaçando romper sua sequência de 10 semanas de alta. O movimento refletiu o que muitos gestores já apontavam: o trade de IA estava crowded; ou seja, qualquer sinal de desaceleração tende a gerar realização.

Por outro lado, financials avançaram 1,3% e softwares & services subiram 1,4%, liderado por Salesforce (+4,0%), mesmo com guidance cauteloso. Há uma rotação em curso, de crescimento especulativo para quality value e defensive growth.

No acumulado mensal (fevereiro), o Nasdaq fechou o mês em queda de 2,5%, pior desempenho apontado desde março de 2025; enquanto o S&P 500 acumulou -0,4% e o Dow Jones avançou +1,2%.

Yields

Os Treasuries encerraram a semana com rendimentos pressionados. O yield (rendimento) do Treasury de 10 anos fechou em torno de 3,98%, o de 30 anos em 4,657% e o de 2 anos em 3,40%.

Ouro e Petróleo

O metal precioso encerrou fevereiro em grande estilo com alta de +7,6% no mês, com a cotação spot (para a compra ou venda imediata da commodity) atingindo US$ 5.230/oz na sexta-feira, próxima às máximas de quatro semanas. No ano, o ouro acumula aproximadamente +20%, com pico histórico registrado em 29 de janeiro no valor de US$ 5.594/oz. Os vetores econômicos seguem os mesmos: queda dos yields reais, demanda por hedge (estratégia financeira utilizada para reduzir os riscos de oscilações de preços, câmbio ou taxas de juros) e posicionamento defensivo de grandes fundos.

Em relação ao petróleo, antes do conflito no Irã, negociava-se o Brent acima de US$ 72,80 e o WTI acima de US$ 67. A semana já vinha com tensões, visto que as negociações nucleares entre EUA e Irã se arrastavam sem acordo, e os mercados de energia já precificavam um prêmio de risco crescente. Então, com o início da operação militar no sábado (28/02), o Brent saltou 10% em operações over-the-counter (OTC), atingindo cerca de US$ 80/barril, e o mercado prevê mais possibilidade de alta, caso o Estreito de Ormuz seja bloqueado.

O evento geopolítico da semana chamado: Operação “Fúria Épica”

No último sábado (28/02), Estados Unidos e Israel iniciaram uma operação militar conjunta de grande escala contra alvos estratégicos no Irã, incluindo instalações nucleares, militares e de comando. Denominada “Fúria Épica”, pelo lado americano, a ação resultou na eliminação do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e de altos comandantes da Guarda Revolucionária do Irã. Os ataques prosseguiram no domingo, com novas ondas de bombardeios em Teerã e outras localidades iranianas.

O Irã respondeu com lançamentos de mísseis e drones contra território israelense e bases americanas no Golfo Pérsico, incluindo Al Udeid (Catar), além de Emirados, Bahrein, Kuwait e Jordânia. As ações levaram ao fechamento de espaços aéreos regionais e a uma escalada de tensões em nível sem precedentes desde as décadas de 1970 e 1980.

Reação dos mercados no curto prazo. O comportamento que percebemos é o padrão clássico de episódios geopolíticos de alta intensidade:

O histórico nos diz que, ainda que o Irã seja um país de grandes proporções e com capacidade militar real, a experiência de conflitos no Oriente Médio baseada nas últimas décadas aponta para um padrão recorrente. Isso significa que entre 6 a 8 semanas, os mercados acionários normalmente se recuperam e o petróleo devolve parte das altas iniciais, exceto em choques extremos, como foi a Guerra do Golfo (1990–1991). Em casos específicos como nas Guerras do Golfo e do Iraque (2003), o S&P 500 recuou entre 5% e 11% nos primeiros dias ou semanas, mas apresentou retornos positivos em horizonte de 12 meses, quando a incerteza se dissipou e os fundamentos econômicos globais permaneceram sólidos.

O ponto central indica que a magnitude do impacto depende diretamente da duração e extensão do conflito, da eventual interrupção de oferta de petróleo e da resposta dos bancos centrais ao choque inflacionário importado. Num cenário em que o Fed já está em compasso de espera com inflação acima do target, e agora, com petróleo em disparada, o espaço para cortes de juros ficou ainda mais estreito.

Na minha percepção episódios como esse, para investidores com horizonte de médio e longo prazo, frequentemente se convertem em momentos de oportunidade. Entretanto, exigem clareza na mesma medida sobre alocação estrutural e frieza para não reagir ao ruído de curto prazo.

A semana que se inicia

Abaixo, confira a agenda de eventos econômicos da semana.

Uma nova semana se abre e nela temos, essencialmente, dois eventos protagonistas: o desenrolar geopolítico no Oriente Médio e o Payroll de fevereiro, na sexta-feira (06). Qualquer leitura fraca no mercado de trabalho, em conjunto com a pressão inflacionária via energia, colocará o Fed em uma posição ainda mais delicada, o clássico dilema entre: combater a inflação ou sustentar o emprego.

Resultados corporativos. Seguimos com uma divulgação de resultados da semana mais fria, como é possível observar na agenda abaixo:

Acompanhe a cobertura completa dos resultados na página: Resultados Corporativos Archives – Avenue Connection.

William Castro Alves
@willcastroalves
Aquele abraço!
Estrategista-chefe da Avenue Securities

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William Castro Alves

Estrategista-Chefe da Avenue

Formado em economia pela UFRGS – RS. Em 2004, iniciou sua carreira na Solidus Corretora, com passagens pelo Koliver Merchant Bank e Banco Alfa. Foi sócio, analista-chefe e um dos principais porta-vozes da XP Investimentos. Também foi sócio e líder de gestão da VGRGestão de Recursos. Possui as certificações Series 7 e 24. É estrategista-chefe, sócio e porta voz da Avenue desde 2018.

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