18 maio 2026
Por William Castro Alves, Estrategista-chefe da Avenue
Seguimos mais uma semana vivendo o pesadelo gerado por uma guerra sem fim. O Irã acusou os EUA de violar o cessar-fogo ao atacar petroleiros e embarcações iranianas no Estreito de Ormuz, respondendo com mísseis, drones e barcos rápidos contra navios americanos (sem danos graves reportados). Já do lado americano, o presidente do país, Donald Trump, afirmou que o cessar-fogo continua em vigor, embora “on life support” (em tradução livre, por um fio ou respirando por aparelhos), e classificou os incidentes como provocação limitada, realizando ataques pontuais retaliatórios contra alvos militares iranianos. Além disso, Trump, rejeitou a contraproposta iraniana e segue impondo um acordo que garanta a reabertura plena e segura do Estreito de Ormuz, ameaçando nova escalada caso não haja avanço na proposta.
Resumidamente, o cenário é de cessar-fogo extremamente frágil e instável, com a diplomacia avançando lentamente em meio a impasses sobre o programa nuclear iraniano, bloqueio naval e controle do Estreito. Devido aos incidentes recentes, reacenderam temores de escalada, justificando a constante volatilidade e a sustentação dos preços do petróleo acima de US$ 100 por barril. Sendo assim, o “playbook de guerra” segue ativo, com mercados monitorando de perto qualquer sinal de ruptura ou progresso real nas negociações.
Durante a cúpula em Pequim na semana passada, o presidente americano priorizou a agenda econômica com o chefe de Estado chinês, Xi Jinping, com o objetivo de estabilizar as relações comerciais após anos de guerra tarifária. Os principais pontos tratados incluem: a extensão de uma trégua tarifária; possíveis cortes em tarifas sobre bens não-sensíveis; compras chinesas de soja, carne, petróleo e aviões Boeing; além da criação de um “Board of Trade” para gerenciar o fluxo bilateral. Trump viajou acompanhado de uma comitiva de CEOs de Big Techs, como Tim Cook (Apple), Elon Musk (Tesla) e Jensen Huang (Nvidia), sinalizando interesse em aliviar restrições tecnológicas seletivas.

Fonte: Reuters.com 14/mai/2026
O encontro foi bem recebido e gerou otimismo cauteloso no mercado, sobretudo nas ações de tecnologia e semicondutores, com expectativas de maior acesso ao mercado chinês, enquanto o petróleo se manteve volátil por efeito de discussões sobre o Estreito de Ormuz. O aceno à trégua ajudou a conter o dólar global e a reduzir a aversão ao risco. No entanto, o avanço foi modesto, sem grandes concessões estruturais, o que limitou o rally e reforçou a visão de “managed trade” em vez de um recomeço completo nas relações.

Na economia, o foco de mercado esteve sobre os indicadores relacionados aos níveis de preços nos EUA, os quais mostraram que a inflação está aquecida nos EUA.
De acordo com o relatório divulgado pelo Bureau of Labor Statistics (BLS), o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) dos EUA registrou alta mensal de 0,6%, em linha com o esperado. Quando anualizada, a inflação superou a expectativa (3,7%) ao registrar 3,8% em abril, atingindo o maior patamar desde maio de 2023. O núcleo do CPI (excluindo alimentos e energia) subiu 0,4% no mês (maior desde janeiro de 2025) e 2,8% em 12 meses, também acima das projeções e acima da leitura de 2,6% (anualizada) em março.

Na quarta-feira (13 de maio), foi a vez do PPI (Producer Price Index) dos EUA para abril de 2026, surpreender o mercado com sua forte alta. Segundo o relatório, o índice de preços ao produtor subiu 1,4% no mês – bem acima da expectativa de +0,5% e do maior ganho mensal desde março de 2022 impulsionado por uma escalada generalizada em serviços e bens, com destaque para energia e gasolina. Na comparação anual, o PPI avançou 6,0% (contra 4,3% em março), a maior variação desde dezembro de 2022. Por fim, o núcleo do PPI (excluindo alimentos e energia) também acelerou para +1,0% no mês e cerca de 5,2% em 12 meses.

Fonte: The 30-year Treasury coupon returned to 5% for the first time since 2007 – The Daily Shot 14/mai/2026
A leitura mais quente dos números da inflação – impulsionada por energia e tarifas – alterou significativamente as perspectivas de juros nos EUA. Afinal, a abertura do dado mostra uma inflação que não se restringe somente a preços de energia, e mesmo em moradia volta a preocupar. O somatório de fatores, como uma inflação ainda persistentemente acima da meta, e dados recentes do mercado de trabalho (Payroll) demonstrando resiliência, gerou uma redução das chances de cortes de juros pelo Fed no curto prazo. Inclusive, criou-se a percepção de que podemos ter elevação da taxa básica americana em 2027. Diante desse cenário, o gráfico a seguir mostra a mudança nas expectativas para os juros nos EUA.

Fonte: US inflation accelerated, outpacing wage growth – The Daily Shot 13/mai/2026
Baseado nos balanços corporativos do primeiro trimestre de 2026 até o momento, podemos afirmar que a temporada de resultados surpreendeu positivamente, servindo de combustível para os índices americanos alcançarem sucessivos recordes. Diferentemente das preocupações envolvendo o conflito no Irã – que muitos temiam prejudicar os resultados das empresas, as companhias do S&P 500 entregaram um desempenho muito acima do esperado, incentivando o otimismo dos investidores e sustentando o rally acionário. É interessante notar que todos os onze setores registraram crescimento positivo pela primeira vez em quatro anos – o gráfico abaixo destaca a evolução da variação dos lucros, divididos por setores, do 4T25 para o 1T26.
Em relação aos lucros, acompanhamos um crescimento de cerca de 27% na comparação anual, mais que o dobro da alta de 12% projetada inicialmente pelos analistas. A movimentação trata-se da maior surpresa positiva desde 2013 (fora do período da pandemia), com um ritmo de expansão que não era visto desde 2004 em condições normais. Diante disso, analistas já têm elevado suas projeções para o restante do ano, reforçando a visão de que o avanço das bolsas tem base fundamental, ainda que como sempre haja excessos. A seguir comentarei os resultados e expectativas para essa semana que inicia.

Fonte: Earnings Bonanza That Trounced Forecasts Fuels Record Stocks Run – Bloomberg

No mercado de juros, a semana passada (11 a 15 de maio) trouxe forte alta nos yields dos títulos do Tesouro dos EUA, os quais romperam patamares importantes, influenciado por inflação mais persistente, alta nos preços do petróleo e preocupações com o cenário geopolítico. Os títulos de 2 anos passaram a negociar acima dos 4%, os yields de 10 anos atravessaram a barreira psicológica dos 4,5% e os yields longos de 30 anos alcançaram mais de 5,1% conforme mostra o gráfico abaixo.

Fonte: tradingview.com 15/mai/2026
Então, apesar da resiliência das bolsas, o mercado de bonds mostrou maior cautela, com uma pressão baixista nos preços dos títulos e consequente alta nos yields. Consequentemente, o mercado passou a especular com uma elevação de juros ainda em 2026 – vide tabela abaixo.

Fonte: FedWatch – CME Group 15/mai/2026
No cenário de renda variável, seguimos percebendo o mercado testar novas máximas, impulsionados por forte otimismo com tecnologia, IA e balanços corporativos sólidos, mesmo com dados de inflação mais quentes e tensões geopolíticas no Oriente Médio. Em relação ao mercado de ações: S&P 500 alcançou a sua sétima semana consecutiva de ganhos, a mais longa desde 2024; Nasdaq liderou as altas, sustentado pelo setor de tecnologia e semicondutores; enquanto o Dow Jones teve ganho mais modesto. Os segmentos de Tecnologia, IA e Crescimento continuaram sustentando o otimismo, com consolidação em máximas mesmo após o recente rally.
Assim como já comentei na última semana, chama a atenção a recente concentração da alta na bolsa americana. A partir do gráfico abaixo, conseguimos perceber como vem sendo a forte e rápida recuperação do S&P 500 desde o final de março (alta de 16%), bastante concentrada, na qual 10 ações foram responsáveis por quase 70% do crescimento.

Fonte: Dividendology no X 14/mai/2026
Nos mercados de commodities, o petróleo continua sendo destaque com forte volatilidade e recuo semanal, após picos recentes impulsionados pelo conflito no Oriente Médio. O ouro e a prata tiveram uma semana de quedas influenciados pela alta dos yields, uma vez que os títulos americanos são considerados um “competidor” do ouro como ativos de segurança.
Por último, essa foi uma semana em que encontramos novamente um choque político doméstico se manifestar na volatilidade da taxa de câmbio, com o dólar saltando de uma posição abaixo de R$ 4,90 para mais de R$ 5,05. A alta do dólar foi impulsionada pela reportagem do The Intercept Brasil que ligou o senador e candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, a um suposto esquema de financiamento para um filme sobre seu pai, o ex-presidente da república, Jair Bolsonaro. O mercado interpretou o fato como enfraquecimento da principal candidatura de oposição para 2026, elevando o risco político e fiscal. O fator externo também contribuiu com a elevação dos yields americanos fortalecendo o dólar globalmente.
Para essa semana (de 18 a 25 de maio), o dado mais esperado nos EUA é a ata da última reunião do FOMC (reunião de abril), com previsão de divulgação na quarta-feira (20). Ela deve trazer pistas sobre o tom do Fed em meio à inflação persistente e ao cenário de cortes de juros. No foco global, também temos dados fortes da China (produção industrial e varejo) na segunda e PMIs preliminares na quinta-feira (21). Logo, teremos:
Por fim, cabe lembrar que teremos feriado nos EUA (Memorial Day) na segunda-feira seguinte (25/05), o que deve reduzir o volume de liquidez.

A temporada de balanços do 1º trimestre de 2026 entra na reta final esta semana, com foco em varejo, tecnologia, semicondutores, agricultura e chinesas. O pico das big techs já passou, mas ainda temos nomes de alto impacto por vir, como: NVIDIA, Walmart, Home Depot, Deere e Intuit. Principais destaques da semana (de 18 a 25 de maio) serão:
Confira logo abaixo o calendário completo de resultados corporativos.

Acompanhe a cobertura completa dos resultados na página: Resultados Corporativos Archives – Avenue Connection.
William Castro Alves
@willcastroalves
Aquele abraço!
Estrategista-chefe da Avenue Securities
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