23 abr 2026
Por Christopher Galvão, Analista de Fundos na Nord Investimentos
Poucos ativos carregam uma simbologia tão antiga quanto o ouro. Historicamente, em momentos de excesso, ele costuma representar disciplina. Em tempos de desordem, sugere abrigo. Quando o mundo parece menos confiável, o metal volta a ocupar aquele lugar quase intuitivo de proteção, como se sua função atravessasse os ciclos sem precisar ser reapresentada.
Talvez por isso a queda de 11,6% em março (Fonte: Bloomberg, código XAU) tenha causado tanto estranhamento. O ambiente parecia, em tese, o cenário ideal para o ouro: escalada dos conflitos no Oriente Médio, aumento da incerteza global e uma sensação crescente de que os riscos geopolíticos, fiscais e inflacionários voltavam a pedir atenção. Ainda assim, o metal caiu.

[Fonte: Bloomberg]
É nesse ponto que a pergunta se impõe: o ouro perdeu sua essência de proteção?
A resposta mais honesta, me parece, é que não. Mas talvez tenha perdido, ao menos por ora, a simplicidade dessa leitura.
Nos últimos dois anos, o ouro não foi apenas um refúgio. Foi também uma história de forte valorização. Em 2024, subiu 27,2%. Em 2025, avançou mais 64,6%. Para quem entrou no fim de 2023, isso representou uma alta acumulada de 109% em apenas dois anos. Até fevereiro deste ano, esse ganho chegou a 156% (Fonte: Bloomberg, código XAU).
Movimentos assim fazem mais do que premiar quem já estava posicionado. Eles alteram a natureza do fluxo. O investidor que antes comprava ouro como proteção passa a dividir espaço com outro perfil: aquele que compra porque o ativo sobe, porque a narrativa ganhou força, porque ficar de fora começa a parecer mais desconfortável do que entrar tarde.
O ouro, então, segue sendo ouro. Mas já não é comprado apenas pelas razões de antes.
Os números ajudam a contar essa transformação. Em 2025, os ETFs de ouro receberam US$ 89 bilhões, muito acima dos US$ 4 bilhões de 2024 e também acima do recorde anterior, de US$ 49,5 bilhões em 2020 (Fonte: World Gold Council https://www.gold.org/goldhub/research/gold-etfs-holdings-and-flows/2026/04).
Só em janeiro e fevereiro, entraram mais US$ 24 bilhões. Em março, porém, houve saída de US$ 12 bilhões nos ETFs de ouro, o maior fluxo negativo mensal já registrado.

[Fonte: Bloomberg]
É claro que havia fundamento para a forte entrada em ETFs de ouro. O mundo realmente oferecia motivos suficientes para a busca por proteção. Mas, em algum momento, a racionalidade da defesa passou a conviver com algo mais emocional: o receio de não participar de um ativo que parecia se valorizar sem interrupções.
Quando esse tipo de fluxo se intensifica, o ativo muda um pouco de comportamento. Não necessariamente em sua essência, mas na maneira como passa a reagir. O ouro continua servindo como instrumento de diversificação e proteção. Só que, depois de uma valorização tão expressiva, também passa a carregar mais posicionamento, mais expectativa e mais sensibilidade a movimentos de realização.
Foi provavelmente isso que março revelou. Diante de um cenário mais tenso, os investidores não correram para aumentar a posição. Preferiu reduzir, em especial, os investidores norte-americanos, que venderam US$ 13,5 bilhões, enquanto os asiáticos seguiram aportando, com entrada de US$ 1,9 bilhão (Fonte: World Gold Council https://www.gold.org/goldhub/research/gold-etfs-holdings-and-flows/2026/04).
Uma hipótese para a expressiva saída dos americanos é que esse movimento não ocorreu porque o ouro tivesse deixado de fazer sentido, mas porque o lucro acumulado já era grande o suficiente para transformar incerteza em gatilho de realização.
Há uma diferença importante entre um ativo que protege e um ativo que, além de proteger, passou a concentrar excesso de entusiasmo. O ouro, recentemente, passou a conviver com os dois papéis. E essa sobreposição ajuda a explicar por que ele não respondeu à crise da forma quase automática que muitos esperavam.
Isso invalida sua presença na carteira? A meu ver, não.
O ouro continua tendo espaço, sobretudo como posição estrutural de diversificação, capaz de oferecer descorrelação em ambientes de maior estresse macroeconômico e geopolítico. O ponto é que, aos preços atuais, talvez ele peça menos idealização e mais medida.
Após uma alta dessa magnitude dos últimos anos, o metal parece mais caro e mais sujeito a oscilações do que a imagem clássica de porto seguro costuma sugerir. Por isso, uma alocação ainda faz sentido, mas em tamanho menor na carteira, mais compatível com a função de compor a carteira do que com a ambição de repetir, no curto prazo, o desempenho extraordinário dos últimos anos, como ilustrado no gráfico “Performance do ouro desde 2024” apresentado anteriormente no artigo.
No fim, a melhor conclusão é que o ouro não perdeu sua essência. Mas o mercado, ao transformá-lo também em objeto de euforia, tornou seu comportamento menos puro, menos linear, menos previsível. E isso diz tanto sobre o ativo quanto sobre a forma como investidores costumam olhar para aquilo que sobe demais por tempo demais.
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