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Balanço das Big Techs e crescimento da economia puxado pelos investimentos em IA

04 maio 2026

Por William Castro Alves, Estrategista-chefe da Avenue

A SEMANA QUE PASSOU

Em linhas gerais, a semana passada foi marcada por uma combinação típica do cenário atual de mercado: tensões geopolíticas persistentes no Oriente Médio, divulgação de dados econômicos americanos que reforçam a narrativa de uma economia resiliente e a temporada de balanços do 1º trimestre de 2026 (1T26) ganhando força diante dos resultados entregues pelas grandes empresas de tecnologia.

CONFLITO NO ORIENTE MÉDIO

Os holofotes da geopolítica permaneceram voltados para o conflito no Oriente Médio, que já ultrapassa dois meses desde a escalada dos ataques conjuntos dos EUA e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro. Até o momento, não houve avanço significativo rumo a um cessar-fogo definitivo na última semana, e isso explica o price action (análise da movimentação dos preços) do petróleo na semana – mais detalhes a seguir.

De um lado, o Irã manteve postura de resistência, com relatos de contra-ataques limitados e preparação para possíveis negociações de paz. Já do outro, Israel e os EUA, seguiram com operações aéreas pontuais contra alvos militares e de infraestrutura. Em Gaza, os ataques israelenses continuaram, embora ofuscados pela cobertura do conflito maior, com o Irã e o Hezbollah, no Líbano. Em relação aos temas de negociações, o Estreito de Ormuz continua sendo o principal ponto de tensão logística, com suas interrupções parciais no fluxo de petróleo, gerando prêmio de risco nos preços da commodity.

Resumidamente, o cenário é de fragilidade persistente. Isso significa que a diplomacia avança em paralelo com as tensões, mas qualquer escalada pode rapidamente reacender a volatilidade nos mercados globais. O “playbook de guerra” continua valendo, com o investidor monitorando de perto os próximos desdobramentos.

Economia

Ao longo da última semana, a agenda econômica trouxe dados que pintam um quadro de resiliência moderada, mas com sinais de cautela inflacionária. Vamos aos detalhes!

Decisão de juros nos EUA

O foco esteve sobre as declarações feitas durante a última reunião de Jerome Powell como presidente do Fed. Durante o momento, Powell, anunciou que o Fed manteria os juros entre 3,50% e 3,75% pela terceira vez em 2026, em linha com a expectativa do mercado. Mais uma vez, o banco central americano reconheceu a incerteza quanto aos desdobramentos no Irã e impactos em termos de preços de energia.

Fonte: Bloomberg, Elaboração Avenue – 18/mar/2026.

A decisão do FOMC (Federal Open Market Committee) ´por manter a taxa de juros inalterada foi amplamente esperada, mas o resultado da votação de 8 a 4, transformou o que seria um evento rotineiro em um dos mais divididos desde 1992. Um dos dissidentes, Stephen Miran, votou por um corte imediato de 25 pb, enquanto outros três – Hammack, Kashkari e Logan – se opuseram ao viés de afrouxamento (easing bias) mantido no comunicado. Essa divisão reflete a tensão presente no mandato duplo do Fed, que enfrenta uma inflação ainda “elevada” – agravada pela guerra no Oriente Médio e alta nos preços de energia – contra um mercado de trabalho que perde força, mas sem demonstrar sinais claros de recessão. A mensagem que fica é de cautela nas movimentações, com o Fed optando por esperar mais dados antes de mover as taxas e priorizando estabilidade de preços sem sacrificar o emprego máximo.

Reuters.com 30/abr/2026

Na última coletiva de imprensa de Jerome Powell, como Chair do Fed, o tom utilizado foi ao mesmo tempo sereno e firme. Agora, a atenção se volta para a reunião de junho de 2026, possivelmente, a primeira sob novo comando de Kevin Warsh. A princípio, o Fed ainda vê apenas um corte em 2026, porém as probabilidades já caíram após o comunicado feito durante a entrevista. Além disso, caso os dados de maio e junho confirmem inflação “elevada”, o ciclo de cortes pode ser adiado ou até revertido; assim como, se o mercado de trabalho piorar mais rápido, o viés dovish deve ganhar força.

Leia mais sobre o assunto em: Como esperado, Fed mantém os juros inalterados a despeito das incertezas

Crescimento econômico

A última semana também trouxe a divulgação do PIB referente ao 1º trimestre de 2026, na quinta-feira (30), o qual exibiu o crescimento da economia dos Estados Unidos, a uma taxa anualizada de 2% no primeiro trimestre de 2026, acelerando em relação ao final de 2025 – período em que o mais longo shutdown federal da história limitou o crescimento da economia. Além do mais, embora o PIB tenha vindo aquém do esperado em +2,0% (contra a expectativa de 2,2%), houve uma recuperação significativa frente ao número do trimestre anterior (4T25) de +0,5%.

Nessa segunda estimativa do Bureau of Economic Analysis, o avanço foi impulsionado por gastos do consumidor resilientes, aliado a um aumento expressivo nos investimentos empresariais, exportações mais elevadas (contribuem para o PIB) e gastos governamentais retomados após a paralisação do governo mais longa já registrada. Apesar de ficar abaixo das expectativas (2,2%), o resultado sinaliza a resiliência da economia americana mediante um cenário de inflação elevada e incertezas geopolíticas.

No detalhe, quando analisamos o dado, percebemos que esse sofreu forte influência de investimentos massivos em inteligência artificial.

Por exemplo, os gastos do consumidor – que representam cerca de dois terços da economia americana – cresceram a uma taxa anualizada de apenas 1,6% no primeiro trimestre, número abaixo dos registrados no quarto trimestre (1,9%). Sendo assim, todo o avanço veio dos serviços, ao passo que os gastos com bens de consumo recuaram ligeiramente. Além disso, quando consideramos a alta de 4,5% nos preços no período, encontramos os gastos reais dos consumidores em queda no início do ano, a uma taxa anualizada de -2,5%.

Agora, por outro ângulo, as empresas deram um forte impulso à economia. Os investimentos empresariais saltaram 10,4% no trimestre, ante a 2,4% no período anterior — o maior ritmo desde meados de 2023. Esse crescimento foi impulsionado inteiramente por aquisições de equipamentos e software, o que, segundo economistas, reflete a continuidade dos pesados investimentos em inteligência artificial. Contudo, alguns analistas alertam quanto ao aparente vigor, que pode estar disfarçando fragilidades em outras partes da economia.

Fonte: The Daily Shot 01/mai/2026

Inflação

Junto com o PIB, o Bureau of Economic Analysis, também divulgou o índice de preços PCE referente a março de 2026, a métrica de inflação preferida do Federal Reserve. O índice subiu 0,3% no mês, elevando a taxa anual para 3,2%, o maior nível desde novembro de 2023. Em relação a inflação PCE geral, houve aumento de 0,7% no mês e 3,5% ao longo de 12 meses. A boa notícia é que embora elevado no índice cheio, o núcleo do PCE, se mostrou em linha com as expectativas do mercado.

Quanto à análise econômica, a avaliação geral segue apontando para uma economia americana sem sinais de recessão iminente. Entretanto, o mix de crescimento sólido, associado à inflação persistente, mantém o cenário de “estagflação leve” – o que deve manter o Fed cauteloso nos próximos meses.

RESULTADOS CORPORATIVOS DA SEMANA PASSADA

Até a última sexta-feira (01), aproximadamente 28% das empresas do S&P 500, já divulgaram seus balanços do 1º trimestre de 2026. Os relatórios mostram o seguinte panorama:

Entre os resultados divulgados podemos observar que o destaque recai sobre o desempenho das big techs:

Meta (META): a empresa reportou receita de US$ 56,31 bilhões (+33% year-over-year), acima das expectativas de aproximadamente US$ 55,5 bi e lucro por ação ajustado de US$ 7,31 – ou US$ 10,44 GAAP, impulsionado por um benefício fiscal único em torno de US$ 8 bi. O grande impulso veio da publicidade, mas o mercado reagiu negativamente ao aumento significativo no guidance de investimentos associado a IA (cerca de US$ 125 bi a US$ 145 bi, em 2026), acima do anterior; aumentando preocupações com custos elevados e com investimentos que não geram, necessariamente, retorno para empresa. Além disso, a queda trimestral em seu número de usuários, devido a interrupção da internet do Irã, também foi outro fator que pesou negativamente para a companhia.

Microsoft (MSFT): a receita total atingiu US$ 82,90 bilhões, registrando um crescimento de 18% na comparação anual e superando o projetado pelo mercado de US$ 81,29 bilhões. O EPS ajustado foi de US$ 4,27, alta de 23% frente ao mesmo período do ano anterior, também acima da estimativa de US$ 4,05. A empresa reportou resultados sólidos, com crescimento sustentado nas receitas, impulsionado por seu software corporativo e serviços em nuvem, Azure. O destaque positivo veio da expansão de inteligência artificial dentro do ecossistema da empresa, contudo o mercado reagiu de forma negativa ao ritmo de aceleração do Azure e o impacto dos altos investimentos em infraestrutura de IA sobre a margem e o fluxo de caixa.

Amazon (AMZN): a receita líquida da organização atingiu US$ 181,5 bilhões, marcando crescimento de 17% na comparação anual, superando o consenso de mercado de US$ 177,13 bilhões. O EPS ajustado foi de US$ 2,78, resultado significativamente acima da estimativa de US$ 1,63. Vale notar que o lucro foi impulsionado por ganhos não operacionais de US$ 16,8 bilhões, provenientes de investimentos na Anthropic. A empresa apresentou desempenho apoiado por AWS, publicidade digital e melhora operacional no varejo. Entretanto, os investidores tendem a reagir com cautela quando a companhia sinaliza maior gasto em capex, sobretudo em logística e IA. Porque isso pode pressionar a lucratividade no curto prazo mesmo com crescimento de receita forte.

Google (Alphabet, GOOGL): a receita consolidada atingiu US$ 109,90 bilhões, um crescimento de 22% na comparação anual, acima da expectativa de mercado de US$ 106,81 bilhões. O lucro por ação ajustado foi de US$ 5,11, quase o dobro da estimativa (US$ 2,62). Os dados mostram que a companhia entregou crescimento saudável em publicidade e bastante forte em seu segmento de nuvem. Inclusive, nesse sentido, o CFO da Google – Anat Ashkenazi – comentou: “Estamos com restrições de capacidade de processamento no curto prazo. Nossa receita de nuvem teria sido maior se tivéssemos conseguido atender à demanda”. Logo, essa forte demanda foi bem recebida pelo mercado com as ações apresentando alta consequentemente após a divulgação.

Apple (AAPL): a empresa assim como as anteriores, apresentou resultados que mostram crescimento da companhia além das estimativas de receita e lucros do mercado. O único número significativo abaixo das expectativas no relatório divulgado, na quinta-feira (30), foi o das vendas de iPhones – abaixo das estimativas pela segunda vez em três trimestres. A receita da companhia subiu 17% em relação aos US$ 95,4 bilhões registrados um ano antes e a Apple aproveitou para afirmar, durante a teleconferência de resultados, que – a receita no trimestre encerrado em junho crescerá entre 14% e 17% em comparação ao ano anterior – trazendo um viés positivo para o resultado, já que analistas esperavam um crescimento de 9,5%.

Acompanhe a cobertura completa dos resultados na página: Resultados Corporativos Archives – Avenue Connection

IMPACTOS NO MERCADO

O mercado de ações americano teve uma performance majoritariamente positiva e resiliente, ao longo da semana passada (entre 27 de abril e 1º de maio de 2026), estendendo os recordes da semana anterior apesar das tensões persistentes no Oriente Médio (conflito EUA-Irã e riscos no Estreito de Ormuz).

O S&P 500 fechou o mês de abril com ganhos expressivos (a melhor performance mensal desde 2020, conforme evidencia o gráfico abaixo), atingindo novos picos históricos acima de 7.200 pontos em alguns momentos.

Fonte: The Daily Shot 01/mai/2026

De acordo com os relatórios, o impulso veio dos resultados corporativos do 1º trimestre (crescimento de lucros acima de 20% no S&P 500), otimismo com IA e demanda por semicondutores – esse conjunto de fatores têm feito os analistas a revisarem suas estimativas de lucros prevendo novos cenários, assim como mostra o gráfico a seguir. O Nasdaq acompanhou a movimentação positiva, registrando recordes e subindo mais; enquanto, o Dow Jones, teve performance mista. Segmento Tech e Growth lideraram, ao passo que setores defensivos e industriais foram mais pressionados pela volatilidade geopolítica e do petróleo.

Fonte: The Daily Shot 01/mai/2026

No mercado de juros, o comportamento na semana passada foi de leve escalada nos yields dos títulos do Tesouro dos EUA. O yield de 10 anos oscilou entre 4,31 e 4,35% no início da semana, para perto de 4,40% no fechamento, refletindo preocupações com inflação persistente (devido a alta do petróleo), tensões geopolíticas e expectativa do Fed manter as taxas mais altas por um período maior, após a reunião recente. Os yields de 2 anos avançaram de forma similar, com perdas modestas nos preços dos bonds.

Nos mercados de commodities, o petróleo continuou volátil e elevado, porém com certa estabilização ou recuos pontuais no final da semana. O WTI oscilou acima de US$ 100-110 por barril, em momentos de pico (com máximas mensais próximas a US$ 110); enquanto o Brent ficou frequentemente acima de US$ 100-116, pressionado por riscos de interrupções no Estreito de Ormuz e incertezas nas negociações entre EUA e Irã — mesmo havendo sinais de alívio técnico e rolagem de contratos.

O ouro teve movimentação mista a levemente negativa em partes da semana (quedas pontuais), impactado por dólar mais forte e yields em alta. Entretanto, permaneceu elevado como hedge registrando acima de US$ 4.500-4.600/oz em trechos. Já a prata seguiu padrão similar com pressão baixista em momentos, diferente do cobre, que se destacou relativamente positivo ou estável, beneficiado por déficits estruturais de oferta e demanda de longo prazo (IA/infraestrutura), sendo assim, um dos metais industriais mais resilientes.

A SEMANA QUE SE INICIA

Para essa semana (de 04 a 08 de maio), tudo indica que o dado mais esperado nos EUA é o Payroll de abril, na sexta-feira (08). O consenso do mercado para o relatório gira em torno de 165 mil vagas, com a taxa de desemprego em 3,8%. Além disso, teremos:

Quanto aos resultados corporativos, apesar de já termos conseguido acesso a divulgação dos balanços das big techs, ainda existem nomes relevantes no espectro de tecnologia divulgando seus números, tais como: Palantir, AMD, Shopify, ARM, Uber, Doordash, MercadoLibre, Airbnb, entre outras. Assim como nomes da economia tradicional como: Pfizer, Occidental Petroleum, Disney, CVS, McDonald’s, Monster Beverage.

Confira abaixo nossa agenda completa com os principais eventos da semana.

A seguir o calendário completo de resultados corporativos.

Acompanhe a cobertura completa dos resultados na página: Resultados Corporativos Archives – Avenue Connection.

William Castro Alves

@willcastroalves

Aquele abraço!

Estrategista-chefe da Avenue Securities

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William Castro Alves

Estrategista-Chefe da Avenue

Formado em economia pela UFRGS – RS. Em 2004, iniciou sua carreira na Solidus Corretora, com passagens pelo Koliver Merchant Bank e Banco Alfa. Foi sócio, analista-chefe e um dos principais porta-vozes da XP Investimentos. Também foi sócio e líder de gestão da VGR Gestão de Recursos. Possui as certificações Series 7 e 24. É estrategista-chefe, sócio e porta voz da Avenue desde 2018.

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