Por William Castro Alves, Estrategista-chefe da Avenue
16 dez 2025
Antes de começar, vale lembrar que, na semana que passou, tivemos nossa live mensal em que conversamos sobre o que esperar de 2026 – ou, em outras palavras, onde investir em 2026. Falamos sobre bolsa, juros, dólar, ouro, investimentos fora dos EUA, entre outros diversos assuntos. Para você que não conseguiu participar, não tem problema: ela ficou gravada no link abaixo:
Certa vez, o físico e filósofo Niels Bohr, Nobel por sua contribuição à física e à mecânica quântica, proferiu uma frase célebre sobre a atividade de tentar fazer previsões:
“Prediction is difficult, especially the future”
Não poderia concordar mais com ele. Como seres humanos, somos limitados em nossa capacidade de antever movimentos e tendemos a perpetuar as realidades vigentes.
Ainda assim, todos os anos, casas de análise, gestoras e bancos se debruçam sobre dados para desenhar perspectivas sobre o ano que se inicia. Por mais que nós, da Avenue, tenhamos uma visão um tanto cética em relação a essa abordagem de “futurologia”, é fundamental entendermos que o mercado é feito de opiniões diversas; conhecê-las e debatê-las é um exercício essencial no ato de investir.
Na famosa analogia de John Maynard Keynes, o mercado age como um concurso de beleza em que os leitores devem escolher os rostos que acreditam que todos os outros escolherão, e não aqueles que consideram pessoalmente mais bonitos. Os vencedores não são os que têm o “melhor” gosto, mas aqueles que melhor antecipam a opinião da multidão sobre a própria opinião da multidão.
Esse jogo de adivinhação em camadas é surpreendentemente semelhante ao mercado financeiro: os preços dos ativos muitas vezes refletem o que os investidores pensam que os outros vão pensar, mais do que uma avaliação fria do valor de longo prazo.
Com isso em mente, analisamos o que diversas instituições financeiras globais estão projetando para 2026.
Projeções do mercado enxergam 2026 como um ano de crescimento moderado – sem recessão técnica, mas também longe de uma expansão robusta. O consenso de analistas espera um avanço do PIB em torno de 1,5% a 2%, sustentado principalmente pelo consumo das famílias e por investimentos corporativos, em especial aqueles relacionados à tecnologia. Pelo lado negativo, o peso de tarifas comerciais e a incerteza da política econômica continuam sendo os principais vetores de preocupação.
No mercado de trabalho, a expectativa é de desaquecimento, não de colapso: a criação de vagas deve seguir positiva, mas em ritmo mais lento, com a taxa de desemprego rondando 4,5% ao longo de 2026. É um nível maior do que nos anos de pico do ciclo, mas ainda historicamente baixo. Esse quadro reforça a leitura de um cenário “meio-termo”: atividade apenas “ok”, inflação teimosamente acima da meta e pouco espaço para cortes agressivos de juros.
No quesito inflação, passados os temores de um impacto maior das tarifas, o cenário não é de “pouso perfeito”. A tendência é que a inflação continue acima da meta de 2% do Federal Reserve, oscilando na casa de 2,6% a 2,9%. Isso indica uma desinflação lenta, parcialmente comprometida pelos impactos tarifários sobre os preços.
Esse cenário faz com que o mercado trabalhe com a ideia de juros ainda restritivos em 2026. O Fed deve cortar a taxa em ritmo gradual, possivelmente levando os Fed Funds para uma faixa considerada apenas “neutra” (não estimulativa). Qual seria esse patamar? O consenso aponta para algo entre 3% e 3,5%, sugerindo um espaço contido para cortes ao longo do ano.
Em geral, as projeções seguem otimistas com o mercado acionário americano para 2026, sustentadas sobretudo pelos ganhos em tecnologia e inteligência artificial. As estimativas de consenso para o S&P 500 apontam para uma valorização de aproximadamente 14% ao longo do ano, podendo alcançar níveis próximos a 7.800 pontos. Alguns modelos mais arrojados sugerem até picos na casa dos 8.000 pontos, caso as tendências de valorização das big techs e a monetização da IA continuem fortes.
Apesar desse otimismo, o mercado deve demonstrar maior seletividade em 2026. Há preocupações com valuations esticados – o S&P 500 negocia a múltiplos elevados em relação aos lucros projetados – e com a concentração do índice nas grandes empresas de tecnologia.
Por isso, estrategistas recomendam uma exposição mais balanceada, ampliando a participação em setores industriais, financeiros e cíclicos de qualidade. O objetivo é mitigar riscos de eventuais correções, especialmente diante de potenciais choques de volatilidade. A postura dominante sugere manter-se investido, mas com foco em empresas sólidas, de alta margem e balanços robustos, reconhecendo que as oportunidades mais expressivas podem surgir em segmentos menos tradicionais do índice (o chamado “old economy”) ao longo do ciclo de 2026.

Para 2026, as expectativas para os mercados desenvolvidos fora dos EUA são construtivas, porém seletivas. Europa e Japão oferecem uma combinação de crescimento moderado, políticas monetárias menos restritivas e valuations relativamente mais atraentes que os do mercado americano.
Em conjunto, Europa e Japão são vistos como vetores importantes de diversificação em relação à forte concentração dos EUA em tecnologia, com temas de valor (bancos, utilities), defesa e energia ganhando protagonismo.
Os emergentes são vistos como um dos principais vetores de retorno potencial para 2026, combinando prêmio de crescimento econômico com ativos descontados. As expectativas giram em torno de um dólar globalmente mais fraco e cortes de juros em várias economias, o que abre espaço para revisões de valuation.
O cenário de consenso é de uma fraqueza moderada do dólar frente a uma cesta de moedas globais (índice DXY). Os fundamentos são: (i) cortes de juros pelo Fed, (ii) melhor crescimento na Europa/Ásia e (iii) questionamentos sobre o dólar como porto seguro absoluto.
Porém, frente ao Real, o quadro é mais ambíguo. Se por um lado o dólar global fraco ajuda, por outro, os juros elevados no Brasil e o risco fiscal criam forças opostas. As instituições apontam para um dólar em torno de R$ 5,50 no fim de 2026, mas com ampla margem de erro dada a volatilidade política local.
O consenso segue muito positivo para o metal precioso. O ouro continua sendo um pilar de proteção, amparado por compras persistentes de bancos centrais e juros reais mais baixos nos EUA.
As projeções apontam para a continuidade do ciclo de alta, com a onça podendo permanecer acima de US$ 4.000 e, em cenários otimistas de grandes bancos, testar faixas próximas a US$ 4.500 ou até US$ 5.000 ao longo do ano. Ativos correlatos, como prata e mineradoras, ganham atratividade como formas alavancadas de exposição a esse tema.
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Existe um certo entusiasmo no mercado com o segmento de investimentos alternativos, como estratégias importantes para diversificação, proteção contra inflação e geração de renda em ambientes econômicos instáveis. O crescimento desse segmento é impulsionado tanto pela ampliação do acesso a investidores de varejo e pelo interesse crescente das novas gerações, que tendem a destinar uma parcela relevante de seus portfólios para mercados privados, infraestrutura, crédito direto e ativos imobiliários fora de escritórios.
O private equity segue forte, com foco em tecnologia e saúde, mesmo diante de avaliações elevadas, enquanto o crédito privado e infraestrutura ganham protagonismo ao suprir lacunas em financiamento, suportando empresas médias e projetos ligados à transição energética, digitalização e economia circular. Alternativos temáticos e ETFs ativos, voltados para megatendências como IA, saúde e infraestrutura, reforçam o papel desses ativos na busca por retornos reais e resiliência diante do risco de liquidez ou choques extremos em 2026.
Essas perspectivas não são inúteis; muito pelo contrário, elas podem auxiliar o investidor individual a compreender as principais narrativas macroeconômicas, os riscos envolvidos e o contexto de valuation dos ativos.
No entanto, o perigo reside em transformar cada relatório de perspectivas anuais em um pretexto para reorganizar radicalmente o portfólio. Quando um grande banco eleva a recomendação das ações americanas ou rebaixa as europeias, ou quando uma instituição altera drasticamente o preço-alvo de um índice, isso pode soar como uma nova “resposta” definitiva que exige ação imediata. Contudo, esse comportamento aproxima o investidor de uma mentalidade de “competição de adivinhação” – na tentativa constante de prever a próxima narrativa – em vez de mantê-lo firme em um plano de longo prazo.
Quando os mercados se assemelham a um concurso de beleza sem fim, a tentação é pular de um “rosto popular” para o próximo – seja o setor em alta deste ano, a notícia macroeconômica do mês ou a dica de ação viral do dia -, sempre na tentativa de ficar um passo à frente da multidão. O verdadeiro desafio, e também a grande oportunidade, é distanciar-se dessa competição e construir um portfólio que não dependa de adivinhar corretamente o próximo “capricho” do mercado.
Um portfólio estrutural é aquele construído em torno de princípios duradouros e restrições pessoais, e não com base nas nuances econômicas de um único ano. Em linhas gerais, trata-se de um plano que apresenta uma divisão clara entre ativos de crescimento (ações e certos investimentos alternativos) e ativos defensivos (títulos, caixa e, ocasionalmente, ouro), devidamente alinhada ao seu horizonte de tempo e à sua tolerância ao risco.
O portfólio estrutural muda, sim, mas lentamente e por motivos fundamentados: grandes eventos da vida pessoal, alterações significativas na capacidade de tomar risco ou mudanças claras de regime econômico que persistam por anos, não apenas meses. Dentro dessa estrutura sólida, as perspectivas anuais servem para realizar ajustes marginais – calibrando ligeiramente as ponderações regionais, a exposição setorial ou a duração (duration) dos títulos – sem a necessidade de desmantelar repetidamente toda a carteira.
A rotação frenética de uma carteira para acompanhar cada nova narrativa – dólar forte, dólar fraco, pouso suave, pouso forçado, boom da IA, desglobalização – acarreta diversos custos para os investidores individuais:
Em contraste, começar com uma alocação estrutural e realizar pequenos ajustes disciplinados (frequentemente seguindo um cronograma ou faixas predefinidas de rebalanceamento) reduz a tentação de transformar o investimento em um concurso de beleza permanente. A ideia central é permitir que os fundamentos e o crescimento composto façam a maior parte do trabalho pesado, enquanto se utiliza o gerenciamento de risco e a diversificação para navegar pelas inevitáveis surpresas do caminho.
Uma conclusão fundamental é que as previsões anuais frequentemente falham porque o mundo insiste em apresentar eventos imprevistos – choques geopolíticos, surpresas na política, rupturas tecnológicas, escândalos corporativos, pandemias e muito mais. Estudos e análises sobre a acurácia de previsões demonstram, regularmente, que mesmo o consenso de especialistas tem dificuldade em superar estratégias simples e diversificadas ao longo do tempo. Assim como no concurso de beleza descrito por Keynes, todos estão tentando prever o que os outros farão, mas o mundo real continua reescrevendo o roteiro à sua própria maneira.
Para o investidor individual, a principal lição é tratar as perspectivas para 2026 – sejam de grandes bancos ou de qualquer outra fonte – como insumos, e não como instruções rígidas. Utilize-as para compreender cenários e mapear riscos, mas construa e mantenha um portfólio estrutural guiado pelos seus objetivos de vida, não pela “história do ano”. Esse tipo de portfólio não precisa mudar toda vez que a narrativa macroeconômica se altera, precisamente porque ele já assume, antecipadamente, que a maioria das previsões específicas estará, pelo menos, parcialmente equivocada.
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